Cemitério da Consolação

O Cemitério da Consolação denominado primeiramente Cemitério Municipal, foi edificado na segunda metade do século XIX. A edificação de um cemitério público municipal ocorreu por iniciativa da Câmara Municipal devido às exigências de médicos sanitaristas, como Libero Badaró (1798-1830), que desejavam acabar com as práticas insalubres de sepultamento nas igrejas. Tais práticas, há muito tempo, eram contestadas por sanitaristas e médicos que a partir da década de 1820, influenciados pelas idéias positivistas e pelo Iluminismo iniciaram um debate acalorado, defendendo o fim dos sepultamentos nas igrejas, por considerarem tal prática nociva à saúde pública e ainda por cima arcaica, mirando-se no exemplo do que já acontecia em vários países da Europa que já haviam praticamente abolido este hábito, dando origem aos cemitérios públicos e laicos.

Dessa forma, em agosto de 1858, a cidade de São Paulo inaugurou seu primeiro Cemitério Municipal, localizado em área periférica, distante portanto, do centro urbano. Isso numa época em que São Paulo era uma cidade muito diferente daquela que conhecemos.

A localização distante da área urbana era condição essencial para a garantia de salubridade da área urbana então restrita àregião que nos dias de hoje corresponde ao centro velho – ruas Quinze de Novembro, Direita e São Bento.

Atualmente o Cemitério da Consolação encontra-se em pleno centro da cidade, cercado por vários prédios e arranha-céus. Não que o cemitério tenha mudado de lugar, foi a cidade que mudou, e muito.

Nos primeiros anos de criação o Cemitério da Consolação recebia pessoas de várias origens e classes sociais, desde escravos, pobres, estrangeiros e agregados até senhores de escravos e homens livre abastados.

Entretanto, após a virada do século, com a modificação dos hábitos da população e o surgimento de uma elite afortunada, esse perfil começou a se alterar, não só no que diz respeito à origem dos sepultados, mas também e principalmente, no estilo das sepulturas, mausoléus e túmulos.

No túmulo de mármore branco onde se encontram os restos mortais da famosa marquesa estão duas plaquetas: uma atribui à ela a doação das terras do cemitério, o que até o momento não é comprovado documentalmente, e outra, que agradece à Domitila a graça recebida. Esta segunda pode parecer estranha, mas curiosamente conta-se que a amante de D. Pedro I é tratada como santa por alguns visitantes que nela procuram solução para uma série de problemas, desde financeiros até conjugais. Segundo o guia do cemitério, o túmulo de Domitila de Castro está sempre repleto de flores vermelhas em retribuição às graças recebidas no campo amoroso.

Entre outros túmulos de personalidades estão os de Dom José Gaspar, Marquês de Itú, Rangel Pestana, João Adolfo e outros que trazem à lembrança nomes de ruas, praças e locais bem conhecidos do cotidiano do paulistano. Lá está, inclusive, o túmulo do próprio Libero Badaró, que além de médico, jornalista e político defensor dos ideais liberais, é considerado um mártir da liberdade de imprensa, e foi assassinado a mando do Ouvidor Ladislau Japi-Assú durante a crise do Império. Badaró era também um dos defensores da criação de cemitérios públicos, e sua lápide ostenta a frase: “Morre um liberal mas não morre a liberdade”, que teria sido dita por ele antes de morrer.

No Cemitério da Consolação também é possível encontrar o mais alto mausoléu da América do Sul, pertencente à família Matarazzo, situado na quadra 82. Em estilo pós-renascentista é um colosso que ocupa 16 terrenos, numa área com mais de 100 metros quadrados. Construído com blocos de granito, tem no topo cinco conjuntos estatuários de bronze, de autoria de Luigi Brizzolara, exibindo, uma pompa difícil de achar até em monumentos de praças públicas. O império Matarazzo entrou em decadência, sua fábrica de Água Branca virou ruína, a mansão na Avenida Paulista veio abaixo, mas o mausoléu da família está lá inteiro, como uma pirâmide de faraó, perpetuando um período de grandeza e poderio econômico que não existe mais.

Por este motivo as famílias e amigos, a partir da primeira década do século XX, contratavam construtores e escultores de renome, em sua maioria de origem italiana ou com formação na Europa, como Victor Brecheret, Luigi Brizzolara, Galileo Emendabili, entre outros para construírem e ornamentarem os túmulos das ilustres personalidades.

Esses túmulos ricamente ornamentados, verdadeiros monumentos de granito, mármore de Carrara e bronze; ou mesmo simples e despojados, testemunham importantes fatos da história social de São Paulo e do Brasil. Trazem a nosso conhecimento figuras de grande representação na vida política e cultural, cujos feitos trouxeram seus feitos grande repercussão na cidade e no país.

Entre as obras de arte mais importantes no Cemitério da Consolação está “Sepultamento” (Mise au tombeau) (Quadra 6A – terreno 09), de autoria do escultor paulista Victor Breccheret, que está sobre o jazigo de Olívia Guedes Penteado (patronesse do movimento modernista). A obra esculpida em granito, com 2,26 metros de altura e 3,65 de comprimento, é datada de 1923, e garantiu ao autor um prêmio no Salão de Outono de Paris, também em 1923. Na peça Brecheret esculpiu em granito uma Pietà, junto com as três Marias.

Um conjunto escultural muito tocante é, sem dúvida, a obra “Lenda Grega” de autoria do artista Nicolla Rollo, que representa a tragédia do casal Orfeu e Eurídice.Orfeu era o músico lendário, filho da musa Calíope, que enternecia até as feras com a sua música, um cantor maravilhoso e que tocava divinamente a lira e a cítara, instrumento este cuja invenção lhe é atribuída. Ao ouví-lo cantar, as feras o seguiam, as árvores se inclinavam em sua direção e até os homens mais irascíveis se acalmavam.

Orfeu participou da famosa expedição dos Argonautas. Durante a viagem, apaziguava as ondas com sua música e, com ela, conseguiu até anular o efeito do hipnótico canto das sereias e salvar o navio.A cena esculpida por Nicolla Rollo mostra Orfeu tangendo a sua lira, com a qual encantava os animais e as plantas, tentando trazer à vida a esposa, tudo isso em vão.

Neste período que ficou conhecido como a “Belle Époque paulistana”, a elite, para firmar status, passou a imitar os hábitos parisienses ocasionando o afrancesamento e a europeização da arquitetura, moda, festas e convenções sociais, com o intuito de desenvolver na vida da cidade o ar cosmopolita, moderno e intelectual tão almejado. O mesmo pode se dizer em relação aos sepultamentos e a ornamentação dos túmulos.

No pensamento da elite da época, aquele que realizou em vida atividades de relevância para a sociedade, deveria ter uma morada à altura de sua importância social. Assim como os palacetes expressavam a posição do indivíduo e o seu status social, da mesma maneira a última morada deveria servir de ápice desta ostentação, marcando na forma de um monumento a evidente superioridade social do proprietário.

Por este motivo as famílias e amigos, a partir da primeira década do século XX, contratavam construtores e escultores de renome, em sua maioria de origem italiana ou com formação na Europa, como Victor Brecheret, Luigi Brizzolara, Galileo Emendabili, entre outros para construírem e ornamentarem os túmulos das ilustres personalidades. Esses túmulos ricamente ornamentados, verdadeiros monumentos de granito, mármore de Carrara e bronze; ou mesmo simples e despojados, testemunham importantes fatos da história social de São Paulo e do Brasil. Trazem a nosso conhecimento figuras de grande representação na vida política e cultural, cujos feitos trouxeram seus feitos grande repercussão na cidade e no país.

No que se refere à arte presente no Cemitério da Consolação e outros que surgiram no fim do século XIX e início do século XX, suas principais referências estéticas são a art noveau e o modernismo, o que explica o aspecto suave de suas esculturas, diferentes do tom fortemente macabro presente nas esculturas de alguns cemitérios europeus, o que pode ser observado, mesmo nas dramáticas pietàs e figuras de mulheres que se debruçam lânguidas sobre os túmulos, como a belíssima mulher que chora com uma trança pendente sobre o túmulo do maestro Chiafarelli (Rua 11 – terreno 36), de autoria de Nicola Rollo.

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